Estée Lauder e Puig: o negócio que não aconteceu (e por que isso é mais interessante do que parece)
Confesso que quando os rumores começaram a circular, fiquei de olho. Não é todo dia que você vê dois nomes assim sendo mencionados na mesma frase — e de um jeito que parecia que algo grande estava por vir.
A Estée Lauder de um lado: Tom Ford Beauty, Jo Malone, Le Labo, Frederic Malle, La Mer. Um portfólio que qualquer pessoa apaixonada por perfumaria conhece de cor. Do outro, a Puig num momento de virada linda — consolidando Charlotte Tilbury, Byredo, Rabanne, Carolina Herrera, Jean Paul Gaultier, etc. num grupo que cresceu sem parecer que estava tentando crescer, sabe?
No papel, fazia todo sentido. A Estée Lauder precisava de força em fragrâncias — que segue sendo um dos segmentos mais vibrantes da beleza, enquanto outros deslizam. A Puig ganharia ainda mais presença nos Estados Unidos e no universo do luxo. Dois mais dois parecia quatro. Mas aí os meses foram passando, as conversas continuaram, e… nada. Na semana passada, comunicados feitos à imprensa anunciaram o término das tratativas.
E quanto mais eu penso nisso, menos parece uma história de fracasso. Porque tem algo que a indústria da beleza ainda não aprendeu completamente a precificar: o que uma marca realmente significa. Não só o quanto ela fatura, mas o que ela carrega de verdade: a narrativa que existe por trás de cada frasco, de cada lançamento, de cada escolha criativa. Isso não aparece em planilhas. E é justamente o que o consumidor de hoje mais valoriza — especialmente na perfumaria. São tantas camadas, como impacto cultural, tendências que estão em alta em cada mercado, percepção das marcas (por exemplo, como a Tom Ford é vista como marca de nicho em algumas praças, quando sabemos que se trata de uma marca designer, nascida da moda, pelas mãos de um estilista (fashion designer)).
E o fato é que grupos que crescem sem parar acabam, muitas vezes, se tornando parecidos demais. A identidade vai se diluindo no caminho. E quando você olha para o que a Puig construiu nos últimos anos — essa capacidade de manter marcas muito diferentes com vozes muito próprias — dá pra entender por que talvez nenhum dos dois lados tenha sentido que valia a pena.
O negócio não aconteceu. Mas o simples fato de ter chegado tão longe já diz muito sobre o momento em que a perfumaria vive: em transformação, em disputa, cada vez mais valorizada — e ainda assim, às vezes, muito maior do que qualquer lógica financeira consegue abraçar.
E, sinceramente, acho que essa foi apenas a primeira de outras negociações que virão em seguida entre grandes conglomerados da beleza. Vamos aguardar!
Imagem gerada por IA | Textos: Perfumart
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