Perfumart - resenha do perfume Puredistance - YsayoO perfume Ysayo foi lançado no final de 2025 pela Puredistance e surgiu de uma ideia que antecede sua própria existência. O nome já havia sido concebido e registrado, anos antes, por Jan Ewoud Vos, fundador da marca, que enxergava naquela combinação de letras algo misterioso, equilibrado e ligado ao imaginário oriental.

Quando chegou o momento de transformar essa palavra em fragrância, Jan entregou a missão a Antoine Lie, responsável por diversos sucessos da marca e um dos perfumistas mais autorais da perfumaria contemporânea. Segundo a própria Puredistance, ele revisitou as lembranças de sua infância na Alsácia, região do nordeste da França cercada por vegetação exuberante. A proposta era simples e ambiciosa: criar sem filtros, cálculos excessivos ou concessões. O resultado é uma fragrância que parece menos uma construção racional e mais uma paisagem olfativa transformada em perfume.

Seguindo o padrão da Casa, sempre em concentração de Pure Parfum Extrait, Ysayo contém 25% de óleos. Sua pirâmide olfativa reúne açafrão, óleo de gálbano do Irã, camomila azul do Egito e artemísia branca do Marrocos na abertura; óleo de salsão da Índia, gerânios do Egito e Madagascar, absoluto de jasmim indiano e tomilho francês no coração; e absoluto de cistus da Espanha, patchouli da Indonésia, couro e vetiveres do Haiti e de Java na base.

A marca apresenta Ysayo como “L’Essence du Samouraï” (A Essência do Samurai) e convida o usuário a entrar no universo do chamado Samurai Verde: um mundo onde verdes terrosos encontram tons púrpura, e onde força bruta e refinamento coexistem. Felizmente, o perfume entrega exatamente aquilo que promete.

Desde os primeiros segundos, Ysayo deixa claro que não pretende seguir os códigos da perfumaria verde moderna. Não há aqui o frescor transparente dos aromáticos atuais nem a limpeza quase asséptica frequentemente associada ao conceito de natureza. O verde de Ysayo possui textura, profundidade e raízes.

O gálbano surge imediatamente, exibindo seu caráter resinoso, vegetal e levemente amargo. Ao seu redor, a artemísia branca e a camomila azul ampliam a sensação de vegetação viva, enquanto o açafrão introduz uma secura elegante que acompanha toda a evolução da fragrância. Desde o início, Ysayo revela um lado animálico e selvagem; é mais terra do que ar.

À medida que evolui, o óleo de salsão assume papel de destaque, conferindo uma assinatura aromática singular com nuances herbais, picantes e amadeiradas. Gerânio, tomilho e jasmim ajudam a conectar a abertura verde à profundidade terrosa da base. Nada parece decorativo; cada ingrediente contribui para a construção de uma atmosfera muito particular.

Durante toda sua evolução, a fragrância transmite a sensação de caminhar por uma floresta úmida após a chuva. Não uma floresta romantizada, mas um ambiente real, onde folhas em decomposição convivem com brotos novos e a terra exala calor. Essa impressão torna-se ainda mais evidente quando chegamos à base.

Existe um protagonista sustentando praticamente toda a estrutura da fragrância: o patchouli. E não se trata de qualquer patchouli. Segundo a empresa, grande parte da fórmula é composta por uma qualidade especial proveniente da província de Aceh, no norte de Sumatra, obtida através de um processo extremamente controlado e considerada um verdadeiro “Grand Cru” pela L’Atelier Français des Matières, especializada em ingredientes raros e de altíssima qualidade.

O patchouli de Ysayo não apresenta a rusticidade excessiva ou a escuridão encontrada em tantas composições. Aqui ele surge refinado, multifacetado e elegante. O vetiver do Haiti, o vetiver de Java, o ládano e o couro ampliam essa sensação, construindo uma base seca, sofisticada e profundamente texturizada e nichada.

Ysayo exige atenção. É uma fragrância que pede tempo e revela novas facetas a cada uso. Não é um perfume de sedução ou aprovação, mas de identidade. Daqueles que parecem dizer mais sobre quem os usa do que sobre o próprio perfume.

Para mim, Ysayo dialoga diretamente com os grandes masculinos verdes e coriáceos dos anos 1970 e 1980, aproximando-se de referências como Aramis, Antaeus e dos clássicos chypres verdes de outrora, revisitados sob uma ótica contemporânea. Uma verdadeira ode à perfumaria e uma das mais agradáveis surpresas da Puredistance nos últimos anos.

Ao final da experiência, a imagem do samurai proposta pela marca faz completo sentido. Não pela associação óbvia à força ou ao combate, mas por algo muito mais interessante: a disciplina.


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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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