Perfumart - resenha do perfume Art Meets Art - Besame Mucho

O perfume Besame Mucho foi lançado em 2017 e, embora a canção homônima fale do medo da perda e, por isso, do pedido de muitos beijos, nesta fragrância o beijo não é inocente. Também não é explosivamente sensual. É um beijo elegante, maduro e carregado de tensão.

Quem deu vida a esta criação foi o perfumista Christophe Raynaud, compondo suas notas e acordes como quem interpreta uma canção. Inspirado na interpretação de Sara Montiel para o clássico de Consuelo Velázquez, o perfumista traduz a atmosfera da música sem recorrer aos clichês normalmente associados ao romance. Em vez de flores exuberantes ou baunilhas envolventes, encontramos uma construção refinada entre íris, couro e madeiras claras. Sofisticação pura!

A abertura apresenta uma mandarina sanguínea vibrante (isso mesmo, um híbrido entre mandarina e laranja sanguínea), levemente condimentada pela pimenta-rosa, enquanto o incenso adiciona profundidade desde os primeiros segundos. E eu adoro essa nota e o efeito esfumaçado que ela traz.

Mas assim como na música, aqui alguns acordes soam mais altos e são mais impactantes ao olfato. É quando a íris assume o protagonismo. Não se trata daquela íris extremamente fria e atalcada encontrada em algumas fragrâncias clássicas. Aqui ela surge cremosa, amanteigada e delicadamente polvorosa. E sobre essa textura começa a surgir um couro extremamente elegante.

Christophe Raynaud demonstra enorme controle da matéria-prima. O couro jamais domina a composição. Ele funciona quase como um tecido nobre envolvendo a íris, criando contraste sem perder suavidade. É levemente rústico, sem ser deveras seco.

A ambrette reforça essa sensação de pele aquecida, enquanto o cedro Atlas acrescenta estrutura amadeirada e persistência à composição, elevando sua performance. Abraçando esse arranjo, o sândalo branco garante que o conjunto seja harmonioso e balanceado. O resultado é um perfume de grande equilíbrio, que não busca impacto imediato e também não tenta impressionar pelo volume.

Seu charme está, justamente, na sofisticação silenciosa com que evolui sobre a pele. Apesar da minha percepção pender discretamente para o masculino, trata-se de uma fragrância que atravessa gêneros com bastante naturalidade.

Besame Mucho desenvolve personalidade própria ao privilegiar uma faceta mais intimista e menos demonstrativa, onde o couro deixa de ser um elemento de força para assumir um papel de refinamento.

É uma fragrância que conversa muito mais com textura do que com exagero. Um perfume para quem aprecia nuances, evolução e materiais nobres, muito mais do que grandes explosões aromáticas.

Todo mundo espera que um perfume chamado Besame Mucho seja quente, doce e sedutor. Aqui você vai encontrar exatamente o contrário: uma fragrância onde a sensualidade nasce da elegância. E é justamente por isso que ela se torna tão interessante de ser vestida e apreciada.


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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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