Perfumart - resenha do perfume Art Meets Art - Lilac Wine

Lilac Wine foi lançado em 2017 e sua fragrância foi criada por Frank Voelkl. Inspirado na canção escrita por James Shelton e eternizada na voz de Jeff Buckley, o perfume parte de uma escolha interessante: em vez de traduzir os elementos literais presentes no título, procura transformar em fragrância a atmosfera emocional da interpretação. Quem espera encontrar um acorde de vinho ou o aroma característico da flor lilás provavelmente se surpreenderá (ou se decepcionará).

Sua pirâmide olfativa traz lavanda, violeta e ameixa na saída; acorde de conhaque, sálvia esclareia e frésia no coração; cedro, musk e musgo na base. O resultado é um floral-aromático-amadeirado extremamente redondo, elegante e confortável.

A composição evolui sem rupturas, com uma violeta delicadamente atalcada ocupando o centro da cena, enquanto a sálvia imprime um caráter aromático muito evidente, refinado e quase meditativo. Aos poucos, um musk limpo e envolvente toma conta da pele, sustentado por madeiras discretas e um leve aspecto terroso que acrescenta profundidade à construção.

Há também um detalhe que me chamou bastante atenção: Lilac Wine compartilha um DNA aromático-fougère que imediatamente me remeteu ao clássico Dolce&Gabbana Pour Homme (1994). Não porque exista uma similaridade direta entre as duas fragrâncias, mas pela sensação que transmitem. Ambos apostam em notas para construir uma masculinidade sofisticada, discreta e atemporal. É um daqueles perfumes que parecem familiares desde a primeira borrifada.

O aspecto melancólico, por outro lado, é brilhantemente construído. Logo na abertura da canção, Jeff Buckley canta: “Eu me perdi em uma noite fria e úmida”; “eu me entreguei naquela luz enevoada”. É exatamente essa atmosfera que a fragrância parece capturar. Existe algo contemplativo em toda a sua evolução, como um dia frio e chuvoso em que o tempo desacelera e tudo parece ganhar outra velocidade. É uma melancolia serena, elegante e introspectiva, muito mais próxima da interpretação de Jeff Buckley do que de qualquer leitura dramática da música.

Curiosamente, minha principal ressalva está justamente na expectativa que o nome cria. O acorde de conhaque, presente na pirâmide oficial, mal aparece, com suas nuances de carvalho que trazem textura. Particularmente, esperava uma faceta mais boozy, capaz de trazer mais personalidade e contraste à composição. Da mesma forma, o perfume nunca tenta reproduzir a impressão olfativa do vinho ou da flor lilás. A escolha é claramente conceitual: interpretar a canção e não ilustrar seu título.

Sob o olhar de 2026, talvez Lilac Wine não impressione pela inovação. Sua linguagem conversa diretamente com aquilo que dominava a alta perfumaria em 2017. E o perfumista executa essa proposta com muita competência, mas dificilmente surpreende quem já conhece esse repertório olfativo.

No fim, porém, talvez essa tenha sido exatamente a intenção de Frank Voelkl. Lilac Wine é uma tradução da emoção que a música provoca – um perfume elegante, introspectivo e discretamente nostálgico, que prefere transformar sentimentos em cheiro em vez de ilustrar literalmente o título da música.

Talvez lhe falte a ousadia que seu nome sugere. Mas dificilmente lhe falta sensibilidade.


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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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