Aura Beauty provou que marca de influenciadora pode virar negócio de verdade.
Confesso que demorei para prestar atenção na Aura Beauty. Body splash, para mim, sempre ocupou aquele lugar meio secundário na perfumaria — produto de banho, coisa de adolescente, sensação de frescor rápido e nada muito além disso. Foi preciso a marca de Jade Picon crescer do jeito que cresceu (além dos movimentos em marcas de luxo e árabes) para eu parar e olhar com mais cuidado.
E o que encontrei me fez revisar a opinião. Porque o mercado mudou — e mudou rápido. Sol de Janeiro, Eudora e WePink já vinham empurrando os body splashes para um lugar mais relevante no consumo (em alguns casos, o primeiro contato de uma geração inteira com a perfumaria). Mas a Aura Beauty pegou esse movimento e foi além.
É nesse contexto que entra a marca. Lançada por Jade Picon em 2024, ela rapidamente deixou de ser apenas mais um projeto associado a uma influenciadora digital para se transformar em um dos casos mais interessantes do mercado brasileiro de beleza. E embora o crescimento acelerado seja frequentemente atribuído à popularidade da fundadora, essa explicação sozinha me parece insuficiente para justificar o que estamos vendo.
Afinal, influência gera aspiração. Construção de marca gera recorrência. E é justamente aí que a Aura Beauty parece ter acertado.
A marca que não quis ser “a marca da Jade”
Existe um padrão relativamente comum entre marcas criadas por celebridades e influenciadores: transformar a imagem do fundador no principal ativo de comunicação. Funciona bem no curto prazo, sem dúvida. O problema é que essa estratégia também cria uma dependência difícil de sustentar ao longo dos anos — e aí o negócio vira raso.
A Aura Beauty seguiu por outro caminho. Embora Jade Picon seja a fundadora e o principal rosto da comunicação, seu nome praticamente não aparece nas embalagens. A identidade visual é construída em torno de um universo próprio, que mistura bem-estar, autocuidado, feminilidade contemporânea e referências mitológicas.
Pode parecer detalhe. Não é. Quando a consumidora compra um produto da Aura Beauty, ela não está necessariamente comprando “o perfume da Jade”. Ela está comprando uma proposta estética que conversa com a forma como deseja se enxergar. É uma diferença sutil, mas fundamental.
Enquanto muitas marcas de influenciadores vendem pertencimento a uma pessoa, a Aura Beauty vende pertencimento a um estilo de vida.
O poder da mitologia na construção da marca

Outro ponto que me chama atenção está na narrativa escolhida. Em vez de nomes descritivos ou referências explícitas, a marca construiu uma coleção inspirada em figuras femininas da mitologia — Afrodite, Hera, Atena e outras personagens servem como ponto de partida para comunicar atributos emocionais e aspiracionais.
Essa estratégia faz algo importante: desloca a conversa da fragrância para a identidade. A consumidora não escolhe apenas entre um floral ou um frutado. Ela escolhe entre representações simbólicas de personalidade. É um recurso amplamente usado pela perfumaria de nicho e pela moda de luxo, mas ainda raro no segmento de body splashes.
Do ponto de vista estritamente olfativo, os body splashes da Aura Beauty não buscam reinventar a roda — e talvez essa seja uma de suas maiores virtudes. As composições exploram acordes que já provaram sua eficácia comercial: frutas suculentas, flores luminosas, baunilha, musk e madeiras cremosas.
São fragrâncias construídas para agradar de imediato. Não há notas desafiadoras, estruturas complexas ou propostas conceituais. Em vez disso, encontramos perfumes que seguem a lógica do consumo contemporâneo: conforto, facilidade de uso e, sobretudo, elogios.
Isso não é falta de qualidade. É compreensão de mercado. A Aura Beauty entendeu que o público de body splashes busca prazer instantâneo, não necessariamente uma experiência olfativa intelectualizada.
Como a marca se posiciona?
Enquanto a Sol de Janeiro aposta na assinatura gourmand tropical, a Eudora na sofisticação técnica e a WePink na conexão emocional com a criadora, a Aura Beauty ocupa um território intermediário (e, na minha opinião, é exatamente isso que a torna tão interessante de acompanhar).
Tem a conexão emocional com a fundadora — esse é o ativo mais óbvio, e seria ingenuidade ignorar isso. Mas não para aí: a marca pegou fragrâncias de apelo bem massivo (nada conceitual, nada que assuste o consumidor médio) e embrulhou isso numa narrativa aspiracional que a categoria simplesmente não tinha até então. É essa combinação — popular no produto, sofisticada na embalagem da história — que lembra mais o que se vê em operações internacionais grandes do que em marca de influenciador.
A força da distribuição
Em pouco mais de um ano, a Aura Beauty já soma milhares de pontos de venda físicos, com presença em farmácias, aeroportos e redes como a Sephora. Segundo a própria marca, essa capilaridade tem sido um dos pilares do crescimento — e não é detalhe pequeno: foi justamente essa expansão que permitiu à marca ultrapassar a barreira comum dos negócios criados por influenciadores, que normalmente ficam restritos ao e-commerce próprio e dependem inteiramente do alcance (orgânico ou pago) da fundadora.
O que o sucesso da Aura Beauty revela sobre o mercado?
Durante décadas, a indústria ensinou o consumidor a enxergar o perfume como o ápice da experiência olfativa. Hoje, uma nova geração parece enxergar as coisas de forma diferente. Ela quer borrifar mais vezes ao longo do dia, quer experimentar fragrâncias diferentes sem grandes compromissos financeiros, quer colecionar aromas da mesma forma que coleciona produtos de skincare ou maquiagem.
A Aura Beauty não criou essa transformação, mas soube interpretá-la com precisão. E talvez seja justamente por isso que seu crescimento mereça atenção — não apenas como mais um sucesso de influenciadora, mas como um sinal claro de para onde parte do mercado de perfumaria está caminhando.
O que vem pela frente?
Os números ajudam a entender o tamanho da ambição do projeto. Depois de alcançar aproximadamente R$ 40 milhões em faturamento pouco mais de um ano após o lançamento, a marca estabeleceu como meta atingir R$ 100 milhões em vendas em 2026.
Se vai conseguir, ainda é cedo para afirmar. Mas uma coisa já parece clara: a Aura Beauty deixou de ser apenas “a marca da Jade Picon” para se tornar um dos casos mais interessantes da nova geração de negócios de beleza no Brasil. E você, está acompanhando esse movimento ou ainda enxerga a marca só pelo nome da fundadora?

Imagens dos produtos: Perfumart (cenário gerado por IA) | Textos: Perfumart
Latest posts by Cassiano Silva (see all)
- Aura Beauty: quando branding, comunidade e fragrâncias se encontram. - 02/07/2026
- YSAYO, DE PUREDISTANCE - 16/06/2026
- Mane investe em jardim experimental para reinventar ingredientes naturais. - 15/06/2026
- IFF inaugura Domaine des Naturels LMR para avançar pesquisa em ingredientes naturais. - 30/05/2026

