Perfumart - Post Sol de Janeiro - testada


Não é só sobre perfume parecido. É sobre até onde uma marca pode ir ao se comparar com outra.

Quando vi essa notícia internacional, comecei a observar mais de perto e resolvi trazer para vocês, meus seguidores, algo que vai muito além da briga jurídica.

A Sol de Janeiro – marca criada em 2015, em Nova York, e hoje parte do Grupo L’Occitane – entrou com uma ação nos Estados Unidos contra a australiana MCoBeauty. O caso chamou a atenção da indústria rápido, porque vai muito além de “perfume parecido com perfume”. Ele coloca em discussão os limites legais dos famosos dupes e da forma como esses produtos são vendidos para o consumidor.

Segundo o processo, a Sol de Janeiro alega que a MCoBeauty usou elementos visuais e estratégias de comunicação pra aproximar seus produtos da linha Cheirosa, criando uma associação direta com a marca na cabeça de quem compra. A MCoBeauty nega tudo e já pediu o arquivamento da ação. Ainda não saiu a decisão.

Muita gente achou, de cara, que a briga era só por causa da frase viral “perfume A cheira igual ao perfume B“. Não é bem assim!

Além da fragrância, o processo também discute identidade visual – o que juridicamente se chama de trade dress: frasco, cores, forma da embalagem. E entra também a comunicação: como os produtos foram apresentados, o discurso usado pra vender, etc.

Isso importa porque perfume inspirado em tendência não é novidade. Mas a questão agora é outra: até onde uma marca pode ir na hora de construir essa comparação com um concorrente de sucesso?

E tem um detalhe técnico que eu preciso trazer para essa conversa: a fórmula e o cheiro de um perfume não podem receber proteção tradicional por patentes ou direitos autorais, pois o cheiro não é considerado uma obra de arte ou expressão visual tangível, e a lei de Propriedade Intelectual exige que marcas e patentes sejam visualmente perceptíveis, excluindo o olfato.

O que se protege é o frasco, a cor, o design. E o mais importante: a composição exata é mantida em sigilo absoluto dentro da empresa fabricante. Todavia, como sabemos, existem equipamentos capazes de analisar fragrâncias e, por esta razão, os “inspirados” abundam no mundo todo.

Perfumart - Post Sol de Janeiro - corpoUm mercado que cresceu junto com as redes

Os dupes deixaram de ser aquela dica espontânea entre amigas – “compra esse aqui que é igualzinho” – e viraram estratégia comercial de marca. Vídeo prometendo “o mesmo perfume por uma fração do preço” acumula milhões de visualizações e puxa venda em escala global, inclusive na ascensão e popularização da perfumaria de nicho (ou vocês acham que milhões de consumidores realmente investem nos originais, com custo médio de 350 euros no exterior e cerca de 670 euros no Brasil?).

E não é só na perfumaria. A L’Oréal já processou a Drunk Elephant por suposta cópia de fórmula de um best-seller da Skinceuticals. E, num movimento ainda mais curioso, a Lululemon registrou, nos Estados Unidos, a própria marca “LULULEMON DUPE”, como se dizer “eu sou o dupe” também virasse propriedade registrada. Ou seja: hoje a comparação não acontece mais só entre consumidores. Muitas vezes ela já nasce dentro da própria comunicação de venda da marca.

O que pode mudar?

É cedo pra prever o desfecho, mas o mercado está de olho, porque esse processo pode influenciar como marcas vão se permitir divulgar produto inspirado em sucesso alheio daqui pra frente.

Independentemente de quem ganha, uma coisa já ficou clara: a conversa saiu de “quem faz um bom dupe” e foi pra outro patamar: identidade de marca, comunicação comercial, diferenciação real no ponto de venda.

O que mais me chama atenção nesse caso não é a semelhança entre os produtos, mas a forma como essa semelhança é vendida pro consumidor. Perfumaria sempre evoluiu inspirada em tendência e isso nunca foi problema. O que parece estar mudando é o limite entre se inspirar em algo que deu certo e construir uma estratégia de marketing inteira em cima dessa comparação.

Seja qual for o resultado do processo, uma coisa é certa: a cultura dos dupes deixou de ser fenômeno de rede social faz tempo. Agora ela também é discussão jurídica – e isso vai influenciar os rumos da indústria de beleza nos próximos anos (e a maneira como os influenciadores fazem suas publis).

 

Imagens geradas por IA | Textos: tradução e adaptação – Perfumart


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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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