
Coleção de perfumes da Mondepars: o que esperar de Kyoto, Rosalee e NERO
Eu tenho um hábito meio obsessivo: sempre que uma marca de moda lança vela aromática, eu fico de olho. E não é fetiche por decoração! É que a vela costuma ser o primeiro teste olfativo de uma grife. É barata de desenvolver, não exige fórmula alcoólica, não precisa de perfumista estrela, e serve como ensaio para descobrir se o público compra o cheiro daquela etiqueta. Quando o perfume vem depois, quase sempre vem carregando o DNA que a vela já tinha desenhado e que mostrou boa aceitação. 😉
Foi exatamente o que aconteceu aqui. A Mondepars, marca criada por Sasha Meneghel em 2024, estreia na perfumaria nesta sexta-feira (18/09/26) com três fragrâncias: KYOTO, ROSALEE e NERO. O trio foi desenvolvido ao longo de dois anos de pesquisa olfativa, a partir de uma viagem da designer e seu marido, João, a Quioto, no Japão – incluindo, segundo a marca, uma cerimônia tradicional do matcha. O lançamento acontece junto à inauguração da nova flagship na Rua Bela Cintra, em São Paulo, e depois segue para as demais lojas e para o site. As informações divulgadas indicam Eaux de Parfum de 100ml cada a R$ 890.
A estrutura das fragrâncias
KYOTO abre com laranja amarga e bergamota, tem coração de matcha, figo e cassis, e fecha com cedro e coco. A marca classifica a fragrância como amadeirada-aromática, o que já é uma sinalização em si, uma vez que o caminho mais fácil para o “Japão”, em perfumaria, seria mirar em notas de chá verde límpido, flor de cerejeira e almíscar branco, e não é por aí que a pirâmide aponta.
ROSALEE trabalha rosa, peônia e jasmim sobre uma base de musk e âmbar.
NERO (o que me parece o mais interessante do trio) parte de elemi, figo e cardamomo, passa por couro, papiro e lírio-do-vale, e assenta em sândalo, cedro e almíscar.
Antes de seguir, uma observação sobre a aposta em si: marcas estreantes em perfumaria costumam lançar um perfume, medir a resposta e só então expandir – é o protocolo de quem não sabe se o público compra cheiro da sua etiqueta. A Mondepars pulou essa etapa e chegou com três identidades simultâneas, cobrindo territórios olfativos que mal se tocam. Das duas, uma: ou alguém fez uma leitura muito precisa do consumidor, ou há muita confiança no briefing.

As velas já tinham dito tudo
A Mondepars vende três velas no próprio e-commerce. Âmago é descrita como amadeirada e terrosa, com cedro e patchouli equilibrados por coco e sândalo cremosos, e um toque esfumado de guaiaco. Fiore é cítrica e verde, com toranja, cassis, rosa e gerânio sobre musgo de carvalho e madeiras. Origem cruza sândalo e cardamomo com cedro, violeta e jasmim.
Se a gente colocar as seis pirâmides lado a lado, o padrão salta aos olhos. Cedro aparece em cinco das seis composições. Coco liga Âmago a KYOTO. Cassis liga Fiore a KYOTO. Rosa liga Fiore a ROSALEE. Cardamomo e sândalo ligam Origem a NERO. Jasmim liga Origem a ROSALEE.
Isso não é coincidência de briefing genérico: é vocabulário. A marca construiu, nas velas, um perfil amadeirado-cremoso com nuances verdes e florais discretas, e os perfumes são a tradução desse perfil para a pele. Quem acompanha o setor sabe o quanto isso é raro: a maioria das grifes brasileiras trata o perfume como categoria descolada do resto, terceiriza um briefing de tendência e coloca a logo no frasco. Aqui existe continuidade. E continuidade, em perfumaria de marca, é sinônimo de identidade.
Dito isso, o trio não é uniforme. ROSALEE é, de longe, a construção mais previsível das três: rosa, peônia e jasmim sobre musk e âmbar, uma equação que a perfumaria comercial resolve há trinta anos, e que hoje ocupa prateleira em qualquer faixa de preço. Não é um defeito, é uma escolha de segurança, provavelmente o perfume que vai sustentar o giro da coleção.
Mas, nesse caso, o resultado não vai depender da lista de matérias-primas e, sim, inteiramente da textura: da qualidade do absoluto de rosa, do volume que a peônia recebeu, de quanto o âmbar puxa para o cremoso etc. É o tipo de fragrância que só se julga na pele, porque no papel ele já foi julgado mil vezes.

O que já sabemos — e o que ainda falta
Depois da publicação deste artigo veio a atualização que faltava: KYOTO e ROSALEE são assinadas pela Vollmens Fragrances, casa de fragrâncias brasileira sediada em Saltinho (SP), atuante desde 2004 e que, desde setembro de 2025, tem a Givaudan como acionista majoritária. Ou seja, duas das três composições nascem de uma casa nacional premiada, hoje operando com o respaldo técnico de um dos maiores grupos de perfumaria do planeta.
Já NERO segue sem crédito divulgado até o momento. E o nome do perfumista individual – de qualquer uma das três – também não me foi revelado (ainda). É esse o dado que ainda separa um projeto olfativo plenamente transparente de um lançamento que credita a casa, mas mantém o autor no anonimato. Marcas internacionais de moda costumam fazer as duas coisas: casa e perfumista, no release, no site, na caixa. Agora falta fechar o trio e, se possível, colocar o nome dos responsáveis também.
Vale registrar também o risco do nome. Kyoto é uma fragrância icônica da Diptyque, lançada como edição de aniversário da casa francesa e hoje item de colecionador. Batizar assim a primeira criação da marca é uma escolha corajosa. Para o público generalista, não significa nada; para o público de perfumaria, gera uma comparação que a Mondepars não pediu e que dificilmente favorece uma estreante.

A minha expectativa
Torço genuinamente para que NERO seja o que a pirâmide promete. Elemi com cardamomo e figo na abertura, papiro e couro no miolo, sândalo na base. É uma estrutura de perfumaria contemporânea bem-informada, não de lançamento de influenciador.
Se o suco dos perfumes entregar densidade e uma projeção honesta, a Mondepars terá feito algo louvável: entrar na perfumaria pela porta da frente, com coerência olfativa construída ao longo dos últimos anos e testada antes, em outra categoria.
No fim, é sempre a mesma aposta: as marcas prometem anos de pesquisa e investimento em matérias-primas e eu prometo avaliação com honestidade. Vamos ver quem cumpre a palavra primeiro.
Imagens: reprodução – Mondepars + Geração por IA | Textos: Perfumart
Latest posts by Cassiano Silva (see all)
- Fugazzi na Sephora: quando o nicho ganha escala. - 08/10/2026
- Mondepars estreia na perfumaria com KYOTO, ROSALEE e NERO. - 16/09/2026
- Dioriginals: Francis Kurkdjian tenta desfazer décadas de reformulações. - 10/09/2026
- LILAC WINE, DE ART MEETS ART - 05/08/2026
