Perfumart - post Dioriginals testada


Francis Kurkdjian passou quatro anos tentando responder a uma pergunta que a perfumaria raramente se permite fazer:
o original de um perfume é a fórmula ou é o cheiro?

Tenho uma mania de colecionador que talvez você também tenha: quando um perfume antigo cai na minha mão, a primeira coisa que faço não é comparar com a memória, é comparar com a versão mais recente, lado a lado, na pele. E quase sempre encontro uma diferença. Às vezes sutil. Às vezes constrangedora o suficiente para eu guardar o frasco novo na gaveta e não usar mais.

É essa sensação – a de que um clássico foi se afastando devagar de si mesmo, sem que ninguém anunciasse isso em lugar nenhum – que a Dior decidiu encarar de frente.

A Dior confirmou que Francis Kurkdjian passou os últimos quatro anos revisando treze fragrâncias históricas da Maison, um trabalho que atravessa quase 80 anos de arquivo, de Diorama (1949) a Forever and Ever (2002). A coleção, batizada de DIORIGINALS, chega às lojas em 1º de outubro, em frascos que retomam os códigos visuais dos anos 1940  e – este é o detalhe que muda tudo – vai substituir as versões hoje comercializadas desses perfumes. Não é uma cápsula nostálgica paralela ao catálogo. É uma intervenção direta sobre o patrimônio olfativo ativo da marca.

O nome escolhido já é uma declaração de intenção. Não é reformulation. É restore. E essa lógica de restauro não parou no líquido; ela passou pelo vidro também.

O frasco escolhido para a coleção é o chamado Ovale: vidro transparente, tampa em formato de meia-esfera, cordãozinho branco amarrado no gargalo. Não é um desenho novo, mas um resgate direto de arquivo, criado em 1948 por Serge Heftler-Louiche, cofundador e primeiro diretor da Parfums Christian Dior. Para DIORIGINALS, ele volta praticamente como era, só que com um rótulo mais limpo, texturizado, e um anel de metal ranhurado com o monograma CD gravado.

Faz todo sentido, se você parar para pensar. Não haveria coerência nenhuma em desenhar uma embalagem nova do zero para uma coleção inteira construída em cima da ideia de que existe diferença entre reformular e restaurar. O frasco também precisava contar a mesma história que o perfume dentro dele.

 

O que Kurkdjian encontrou nos arquivos

Quando assumiu a direção de criação de perfumes da Dior, em 2021, Kurkdjian começou a revisitar sistematicamente o acervo da casa e o que encontrou foi desconfortável. Ao longo de décadas, mudanças de origem em matérias-primas, substituições por exigência regulatória de alérgenos e ajustes puramente mercadológicos foram, aos poucos, afastando algumas dessas fragrâncias do que originalmente foram. O próprio Kurkdjian resume esse processo com uma palavra que eu não esperava ouvir de alguém falando sobre a própria linha que assina: perfumes “erodidos” (ou seja, corroídos, desgastados ou que sofreram os efeitos da erosão de forma lenta).

É uma palavra forte, e gosto dela justamente porque tira a discussão do lugar comum. Reformulação, do jeito que normalmente comentamos na indústria, costuma ser sinônimo de perda: cortar um ingrediente caro, trocar um absoluto por um sintético mais barato, empobrecer a curva olfativa em nome do custo, etc. Aqui a lógica se inverte: Kurkdjian não está reformulando para economizar. Ele gastou quatro anos de trabalho para desfazer o efeito acumulado de reformulações anteriores.

O método que ele descreve é praticamente arqueológico. Primeiro, reconstruiu versões de referência usando, inclusive, matérias-primas que hoje não entrariam mais numa fórmula comercial, só para ter um parâmetro olfativo confiável do que aquele perfume deveria cheirar. Depois, partiu para recriar o mesmo efeito com os materiais e as tecnologias permitidas atualmente. Ou seja: a fórmula final de 2026 quase certamente não é a fórmula de 1956. Mas o objetivo dela é chegar ao mesmo lugar olfativo – como trocar o motor de um carro clássico por um elétrico e insistir que a experiência de dirigir continue parecendo a mesma.


Exemplos que sustentam a tese

Dois casos, especificamente, me pareceram os mais fortes para ilustrar isso.

Em Eau Fraîche (1955), que teria sido, segundo o próprio Kurkdjian, o perfume pessoal de Christian Dior nos últimos anos de vida, o trabalho foi retirar uma faceta que, nas versões mais recentes, havia ficado limpa e soapy demais, recuperando algo mais próximo do efeito original.

Já em Diorissimo (1956), o ajuste foi na curva do lírio-do-vale, nota que essa fragrância praticamente inventou como referência para toda a perfumaria que veio depois dela. E aqui está o ponto que eu destacaria em qualquer conversa sobre o tema: algumas das versões restauradas acabaram soando, paradoxalmente, mais contemporâneas do que as versões que estavam à venda até agora. Não porque Kurkdjian tentou modernizá-las, mas porque, ao recuperar traços que haviam se perdido pelo caminho, elas voltaram a soar vivas.

Isso é uma provocação e tanto para quem, como eu, vem insistindo há anos que parte do que o mercado chama de “moderno” já existia na perfumaria décadas atrás, só estava soterrado sob reformulações sucessivas.

Perfumart - post Dioriginals lista


Roudnitska no centro do projeto

Os três primeiros perfumes que Kurkdjian atacou – Eau Fraîche, Diorissimo e Diorella (1972) – são todos assinados por Edmond Roudnitska, nome que Kurkdjian trata, sem meio-termo, como referência para toda a perfumaria que veio depois dele. Não é força de expressão: é em torno de Roudnitska (e de Paul Vacher, autor de Diorling, 1963) que se organiza a primeira metade da coleção, batizada de “Dior in Grasse“, um recorte dedicado aos grandes florais-chypres que ajudaram a construir a identidade olfativa da Maison nos anos 1950 e 60.

Para quem acompanha o Perfumart há um tempo e talvez não conheça Roudnitska a fundo: a crítica de perfumaria costuma tratá-lo como uma espécie de fundador de escola – o primeiro a exigir de uma composição olfativa o mesmo rigor estrutural que se cobra de uma obra de arte. Faz sentido que Kurkdjian tenha começado exatamente por ali.


A pergunta que fica

E é aqui que a matéria deixa de ser só notícia de lançamento. Se uma matéria-prima usada por Roudnitska em 1956 não pode mais entrar numa fórmula comercial hoje, mas Kurkdjian consegue reconstruir o efeito olfativo dela com recursos contemporâneos, qual das duas versões é mais fiel ao original: a que manteve mais elementos da fórmula histórica, mas mudou de cheiro ao longo de décadas de pequenas reformulações? Ou a que tem uma fórmula inevitavelmente diferente, mas foi desenhada para voltar a cheirar exatamente como Roudnitska pretendia?

Eu não tenho uma resposta fechada para isso – e acho que não deveria ter (especialmente, antes de cheirar os 13 perfumes que virão). Mas a pergunta em si já diz algo importante sobre para onde a perfumaria de luxo está olhando agora: não para a próxima novidade, mas para o próprio acervo, tratado finalmente como faz sentido tratá-lo – como patrimônio, sujeito ao tempo, que às vezes precisa de restauro para continuar dizendo o que sempre quis dizer.

Quero saber de que lado você fica nessa discussão. E, se você já teve a experiência de comparar uma versão antiga com uma reformulação atual, conte nos comentários qual perfume mais te surpreendeu – para o bem ou para o mal.

 

Imagens: reprodução – Dior + Geração por IA | Textos: tradução e adaptação – Perfumart


 

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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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