Perfumart - resenha do perfume Art Meets Art - Like a Virgin extended

Like a Virgin Unplugged Edition nasceu em 2024 como uma edição limitada da coleção Art Meets Art e funciona como um flanker de Like a Virgin, lançado em 2017. A inspiração continua sendo o maior sucesso de Madonna, mas basta a primeira borrifada para perceber que a interpretação mudou completamente. Se a versão original, criada por Alberto Morillas, escolhia a delicadeza e a transparência, aqui o volume aumenta. E, curiosamente, foi justamente nesta releitura que finalmente encontrei Madonna.

Quem assina esta criação é o perfumista Fabrice Pellegrin, que trabalhou com uma pirâmide olfativa enxuta, porém extremamente eficiente: bergamota e frésia na saída, flor de laranjeira marroquina no coração e um fundo composto por leite e baunilha. Poucas matérias-primas, escolhidas com precisão para construir uma fragrância floral voluptuosa, envolvente e de personalidade marcante.

A abertura ainda preserva um leve frescor graças à bergamota e à frésia, mas ele dura pouco. Rapidamente, a flor de laranjeira assume o protagonismo e transforma completamente a personalidade da composição.

É aqui que mora a grande diferença em relação ao perfume original: a transparência cede espaço à exuberância; a delicadeza dá lugar à presença. É quase como se Madonna voltasse ao palco!

E aquela sensação de pele limpa que dominava a primeira versão é substituída por uma feminilidade muito mais exuberante, confiante e cheia de atitude.

A flor de laranjeira aparece intensa, cremosa e quase carnuda, revelando toda a sensualidade que essa matéria-prima é capaz de oferecer. Ao seu redor, surge um toque levemente frutado e suculento, embora nenhuma fruta apareça oficialmente na pirâmide olfativa. O perfumista construiu um acorde floral que remete às facetas cremosas e solares de um buquê de jasmim e ylang-ylang. É justamente essa impressão carnuda que deixa a fragrância ainda mais envolvente, reforçando seu caráter floriental sem abrir mão da elegância.

O leite acrescenta uma cremosidade delicada, enquanto a baunilha abraça toda a composição sem transformá-la em um gourmand óbvio. Ela funciona muito mais como um elemento de textura do que propriamente de doçura, arredondando a fragrância e criando uma evolução extremamente harmoniosa.

A construção também chama atenção pela performance. Já nos primeiros testes, a fragrância ultrapassou 13 horas de permanência na minha pele e permaneceu por mais de 19 horas na fita olfativa, demonstrando uma base extremamente consistente. E o mais interessante é que essa evolução acontece sem grandes mudanças de personalidade: a flor de laranjeira continua conduzindo a composição até as últimas horas, apenas ganhando nuances mais cremosas e envolventes conforme a baunilha e o leite passam a ocupar mais espaço.

Quem aprecia fragrâncias centradas na flor de laranjeira provavelmente encontrará aqui um enorme motivo para se apaixonar. Existe uma assinatura que pode agradar bastante quem gosta de Classique, de Jean Paul Gaultier, por exemplo. E a coincidência não poderia ser mais feliz: foi justamente Gaultier quem desenhou o lendário espartilho usado por Madonna na Blond Ambition Tour, um dos figurinos mais icônicos da história da música pop. Talvez por isso essa associação me pareça tão natural.

Aqui, finalmente, a fragrância transmite a mesma ousadia, feminilidade e empoderamento que sempre enxerguei na artista. Ao contrário da versão original, que seduz pela transparência, Like a Virgin Unplugged Edition conquista pela presença. É um floral mais voluptuoso, mais encorpado e com uma sensualidade muito mais evidente. Existe personalidade, existe atitude e existe uma assinatura olfativa que dificilmente passa despercebida.

A gente espera que um perfume chamado Like a Virgin represente Madonna em forma de fragrância. Na versão original, eu encontrei outra interpretação. Desta vez, encontrei Madonna. Encontrei a artista ousada, confiante e dona de uma feminilidade inconfundível. Like a Virgin Unplugged Edition aumenta o volume da composição, abraça a exuberância da flor de laranjeira e entrega uma fragrância muito mais alinhada ao imaginário que seu nome desperta. Para mim, é esta versão que realmente faz justiça ao legado da Rainha do Pop.


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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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