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Fragrâncias recicladas: do lixo ao luxo.

Perfumart - Post fragrâncias recicladas - testada


Upcycling: o movimento da perfumaria sustentável.

Já faz um tempo que o termo sustentabilidade deixou de ser tendência para se tornar realidade em, praticamente, todos os setores do mercado. Na indústria da moda, esse conceito foi absorvido com maior rapidez e, então, a reciclagem ganhou força, utilizando processos que desfazem as fibras de tecidos, transformando-as em novas.

Além da reciclagem, outras formas de produção que tentam diminuir os resíduos e a poluição ganharam espaço, dentre elas, o upcycling. Mas você sabe qual a diferença?

Pois bem, no recycling (reciclagem), a matéria-prima de um produto passa por um processo de recuperação e resulta em um novo item, tal qual o original. Exemplo: reciclagem de latas de alumínio para a fabricação de novas latas.

No downcycling (subciclagem), há utilização de material que, normalmente, seria descartado e cujas propriedades sofrem perdas, a fim de dar origem a outro produto de menor qualidade ou valor agregado. Exemplo: sobras de papel alcalino que viram papel higiênico.

Já no upcycling (superciclagem), ocorre o oposto. Os resíduos descartados são reaproveitados de forma a produzir um novo produto, otimizando o ciclo de vida e contribuindo com o meio ambiente. Exemplo: sacolas de tecidos produzidos a partir de garrafas plásticas.


O upcycling e o universo da beleza.

Não demorou muito para que o termo upcycling entrasse para o vocabulário de outros segmentos, além da moda. O universo da beleza, que já vinha demonstrando preocupação com a questão do carbono, rapidamente se rendeu e as prateleiras começaram a dar espaço para cosméticos que usam sementes de frutos triturados e até resíduos de café como esfoliantes.

O Grupo Dierberger cultiva a própria macadâmia a fim de atender a indústria alimentícia, mas explica que a partir do processo de extração do seu óleo é gerado um subproduto que contém nutrientes e traz benefícios para pele e cabelos. No Reino Unido, a marca Dr. Craft utiliza polpa de cassis para elaborar tinturas capilares. Exemplos não faltam!

 

As “fragrâncias recicladas” e o marketing da sustentabilidade.

Na indústria dos perfumes, caixas produzidas a partir de papelão reciclado, bem como frascos e tampas com fonte em materiais de reuso, já não são mais novidade. Muito pelo contrário, o consumidor de hoje em dia demonstra maior preocupação com a lista de ingredientes dos produtos que consomem.

No entanto, a tabela das matérias-primas necessárias para a criação de uma fragrância ainda é um assunto delicado. Muitas delas são extraídas de fontes naturais, como flores, especiarias e frutas, mas a alta demanda e a falta de consciência ambiental também trouxeram risco de extinção para algumas espécies de árvores, como o sândalo, por exemplo.

Além disso, durante muitos anos, essa indústria utilizou ingredientes de origem animal, como o almíscar e o castóreo, que tiveram de ser substituídos por sintéticos. Todavia, estes últimos podem carregar uma considerável quantidade de compostos voláteis que, de acordo com pesquisas internacionais, também contribuem com a poluição.

Cresceu, então, a popularidade das fragrâncias naturais. E com isso, as Casas de Fragrâncias começaram a se preocupar com o assunto visando oferecer aos seus perfumistas uma nova paleta de ingredientes derivados de resíduos descartados, como frutas, pétalas de flores ou restos de madeiras.

A Givaudan foi uma das pioneiras nesse processo, patenteando ingredientes como o Apple Oil Orpur®, extraído das sobras da polpa de maçãs, o Rose NeoAbsolute™ Colorless Orpur®, obtido das pétalas de rosas através de uma segunda destilação, o Vetivyne™, entre outros.

Outra gigante da indústria, a Takasago, realiza upcycling da madeira japonesa Hinoki, considerada uma árvore sagrada. Inicialmente, elas são usadas na indústria de carpintaria e seus resíduos são recuperados para produção de óleos essenciais.

Perfumart - Post fragrâncias recicladas - exemplo
I AM TRASH – LES FLEURS DE DÉCHET, o primeiro perfume de luxo baseado no upcycling. Tem pétalas de rosas e lascas de sândalo já destiladas, além de frutos residuais da indústria de alimentos. (Reprodução – etatlibredorange.com)

A qualidade das “fragrâncias recicladas”.

Aqui temos, talvez, o ponto mais delicado desse assunto. Muito pensam que ingredientes obtidos nesse processo de upcycling não vão ter a mesma qualidade, uma vez que já foram destilados ou extraídos de alguma forma. Entretanto, os fabricantes explicam que, de certa maneira, alguns deles podem trazer facetas ainda mais interessantes do que as de antes, como é o caso de alguns bioabsolutos de madeira, que resultam em nuances mais esfumaçadas ou úmidas.

Um outro ponto crucial está ligado ao custo. Muitos acreditam que fragrâncias recicladas (assim como roupas) deveriam ser bem mais baratas, já que grande parte (ou o total) das matérias-primas são obtidas de graça, pois iriam parar no lixo.

Na prática, porém, não é assim que funciona! Há um custo alto envolvendo a coleta, a higienização e as novas tecnologias de reaproveitamento. Esse custo, por vezes, se iguala (e até supera) os custos de produção mais tradicionais, o que ainda torna o processo sustentável um desafio face à velocidade industrial, voltada para o imediatismo.

No final das contas, não se pode afirmar que o upcycling e, consequentemente, as fragrâncias recicladas representam o futuro dessa indústria. Mas, sem dúvidas, ele veio para ficar e fazer com que os fabricantes pesquisem mais sobre novas formas de incorporar ingredientes, ao mesmo tempo em que torna o consumidor mais exigente antes de incluir um item na cesta.

 

E você, tem alguma opinião sobre o assunto? Deixe seu comentário aqui embaixo.

 

Imagens: Pexels | etatlibredorange.com (reprodução)  /  Textos: pesquisa e adaptação – Perfumart.


 

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𝘽𝙤𝙧𝙧𝙞𝙛𝙖𝙣𝙙𝙤 𝙘𝙤𝙣𝙝𝙚𝙘𝙞𝙢𝙚𝙣𝙩𝙤 𝙝𝙖́ 𝙖𝙣𝙤𝙨. Crítico de fragrâncias, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, blog especializado no assunto.

2 comments on “Fragrâncias recicladas: do lixo ao luxo.

  1. Julio Morabito

    Muito interessante. Confesso que não sabia diferenciar os processos de reaproveitamento!

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