Perfumart - resenha do perfume Mancera - Jardin ExclusifLançado em 2018 e assinado por Pierre Montale, Jardin Exclusif é uma das criações da Mancera que exploram a exuberância dos acordes frutados em combinação com flores, madeiras e musk. Embora sua construção floral-frutal, com nuances adocicadas, apresente uma inclinação mais feminina, considero que seja uma fragrância perfeitamente unissex, sobretudo quando pensamos na liberdade de interpretação que caracteriza a Perfumaria de Nicho contemporânea.

Sua composição segue uma proposta floral-frutal de caráter exuberante, com um aspecto floral nectarado e uma doçura quase viciante. A abertura revela uma combinação generosa de frutas amarelas maduras, com destaque para o pêssego, além de uma nuance aquosa de pera, que conferem suculência e luminosidade ao conjunto. O jasmim aparece de maneira bastante evidente, com uma faceta solar que amplia a sensação de um jardim florido em plena primavera. Ao longo da evolução, o sândalo ganha espaço e acrescenta uma textura macia e cremosa, suavizando as arestas da composição.

O mais interessante é que Jardin Exclusif transmite muito mais a ideia de um pomar cercado por flores do que simplesmente a de um acorde frutado artificial. Evidentemente, é difícil imaginar uma combinação de frutas tão intensa, difusiva e persistente sem uma participação expressiva de moléculas sintéticas. A questão, portanto, não está na presença desses materiais, mas na maneira como foram utilizados. E aqui a Mancera consegue equilibrar uma estrutura potencialmente exagerada, evitando que o perfume se transforme em uma mistura excessivamente adocicada, com aquele efeito de shampoo frutado que, em altas doses, pode se tornar cansativo e até provocar dor de cabeça. Quando aplicado com moderação, o resultado funciona muito bem.

Também, é praticamente impossível não estabelecer uma comparação com Kirkè (Tiziana Terenzi, 2015) e Erba Pura (Xerjoff, 2018), duas fragrâncias que ajudaram a consolidar esse estilo de perfumaria frutada, intensa e de grande projeção. Jardin Exclusif compartilha dessa mesma linguagem olfativa, mas apresenta um caráter mais floral e, na minha percepção, uma construção menos artificial. O jasmim e a cremosidade do sândalo contribuem para essa diferença, conferindo uma sensação mais arredondada ao conjunto.

Em termos de performance, entrega exatamente o que se espera de uma criação dessa natureza: projeção poderosa, rastro expressivo e excelente fixação. Não surpreende que figure entre os best-sellers da Mancera. Gostaria de dizer que se trata de uma fragrância única, mas não é verdade. Esse perfil olfativo já foi amplamente explorado pelo mercado, inclusive pelas marcas que se dizem “árabes”.

Como sugestão de layering, a própria marca recomenda sua combinação com Coco Vanille. A proposta é acrescentar uma dimensão mais tropical, cremosa e gourmand ao conjunto, intensificando as nuances de coco e baunilha sobre a estrutura floral-frutada de Jardin Exclusif.

Para mim, Jardin Exclusif é uma fragrância essencialmente primaveril, não apenas pelo protagonismo das frutas e flores, mas pela luminosidade e pela sensação de alegria que transmite. É um perfume que parece traduzir olfativamente um jardim em plena floração, com árvores carregadas de frutos maduros, enquanto pássaros e abelhas se aproximam dos frutos que caíram ao chão. Tudo isso com a personalidade característica da Mancera.


 

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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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