Perfumart - resenha do perfume Goldfield&Banks - Tales of Amber

Tales of Amber foi lançado em 2025 e sua fragrância foi criada pela perfumista Suzy Le Helley (Symrise), sob direção criativa de Dimitri Weber. O novo perfume da marca integra a Botanical Series, após grandes sucessos como Silky Woods, Purple Suede e Island Lush. Diferente desses três anteriores, que vinham em frascos laqueados com ouro 24k, Tales of Amber vem em um azul que fica entre os tons de azul-cobalto e azul-bondi.

A inspiração vem de um dos materiais mais fascinantes da perfumaria: o ambergris. Influenciada pelo encontro entre o oceano e as paisagens áridas da Austrália, a fragrância constrói um diálogo entre calor mineral e resinas douradas. É classificada como ambarada-amadeirada e, assim como Silky Woods Elixir, vem na concentração de Extrait de Parfum, dessa vez com 30% de óleos essenciais em sua composição.

Para criar uma fragrância que retratasse a pureza do ambergris da Nova Zelândia e uma sensualidade que capturasse a terra queimada, resinas iluminadas pelo sol e a pele aquecida por minerais, foram combinadas notas de âmbar da Nova Zelândia, Base de Laire Ambre 83, dois tipos de Oud, flor de laranjeira, íris e canela.

Mas antes de prosseguir, preciso falar da Base de Laire. Você sabe o que são as Bases de Laire? Vou simplificar muito aqui, mas sugiro que você pesquise mais sobre o assunto, pois elas fazem parte da história da perfumaria. As Bases De Laire foram inventadas por George de Laire, em 1878, e são acordes de fragrâncias pré-fabricados, como se fossem bases de perfumes. São criadas a partir da mistura de substâncias aromáticas sintéticas com matérias-primas naturais. Existem várias Bases de Laire na paleta da Casa de Fragrâncias Symrise e Tales of Amber usa uma das mais clássicas, a Ambre 83, que contém a primeira combinação de um ingrediente natural (absoluto de ládano) e um ingrediente sintético (vanilina).

Pois bem, quando a fragrância de Tales of Amber toca a pele, um frescor mineral surge, trazendo uma sensação de algas marinhas com flores macias. Aqui, não estranhe se você notar facetas salgadas. Tem dias em que eu as sinto com mais força e outros, nem tanto. Também sinto um toque vegetal e fresco, que se funde com uma canela suave, mais redondinha, e com o brilho peculiar da flor de laranjeira. Esta, então, é muito perceptível.

Com o passar do tempo, facetas mais terrosas e um pouco polvorosas emergem e, a essa altura, a gente nota que a manteiga da íris resolveu dar o ar da graça. Temos um efeito atalcado elegante misturado a um calor resinoso e sutil. Em mim, ainda noto a flor de laranjeira trazendo brilho.

Na secagem, a nota de ambergris da Nova Zelândia confere uma aura salgada e animalizada, extremamente refinada, envolvida pela cremosidade balsâmica da Base de Laire Ambre 83. E o Oud acrescenta densidade animálica e um leve aspecto esfumaçado, criando um rastro quente e sensual.

O resultado é um âmbar que não se apoia apenas na doçura tradicional, mas explora contrastes entre mineralidade, resinas queimadas, pele salgada e suavidade atalcada. A fragrância oscila entre o conforto e o mistério, evocando paisagens quentes e vento salgado.

Acho importante trazer um ponto aqui: muita gente confunde o aspecto ambarino (do ambergris) com o ambarado (acorde âmbar, cujas características são mais quentes, lembrando mel ou benjoim, e o nome vem da pedra fossilizada. É a base dos orientais). Tales of Amber traz o teor animálico, sensual e o poder de fixação do primeiro, mas tem gente que acha que não é “oriental o suficiente”. Porém, quem entende de matérias-primas e conhece o cheiro do âmbar, hoje sintetizado, vai entender melhor essa construção.

Tales of Amber tem projeção mediana, com uma acomodação rápida na pele, e a sua durabilidade é excelente. A assinatura olfativa desse perfume é sofisticada e envolvente, além de muito unissex. Mais do que revisitar um acorde clássico, Tales of Amber reconecta a perfumaria às suas origens elementares, transformando matéria bruta em poesia sensorial. Eu gostei bastante!


 

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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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