Perfumart - resenha do perfume Mancera - Amore CaffèLançado em 2023, Amore Caffè é uma das criações da Mancera que exploram o universo gourmand, tendo como inspiração uma tradicional sobremesa italiana: o affogato. Para quem não conhece, trata-se de uma bola de gelato (geralmente de baunilha), sobre a qual é despejada uma dose de café espresso quente. Algumas versões também recebem um toque de licor, como o amaretto, criando um contraste entre temperaturas, texturas e sabores. E é justamente essa experiência que a Mancera procurou traduzir olfativamente.

Classificado oficialmente como gourmand-oriental, Amore Caffè explora o encontro entre o amargor do café, a cremosidade da baunilha e uma doçura quente e ligeiramente alcoólica. Aproxima-se um pouco do universo de Angels’ Share e, mais recentemente, de Midnight Espresso (ambas de By Kilian), esta última com uma proposta ainda mais próxima do encontro entre café e rum. Não são fragrâncias necessariamente semelhantes em cheiro, mas compartilham essa linguagem de sobremesas, bebidas alcoólicas e acordes gourmand intensos que têm chamado bastante atenção.

A abertura apresenta uma nota de café bastante realista, remetendo ao espresso recém-preparado, com seu caráter torrado e levemente amargo. Mas esse café divide espaço com o amaretto, tradicional licor italiano conhecido pelo sabor de amêndoas, responsável pelas nuances alcoólicas e por uma doçura licorosa (e meio amarga) que contrasta com o café.

O interessante é que o café não permanece como protagonista. Sua presença diminui gradualmente, dando espaço aos demais acordes. E não considero isso um defeito. Pelo contrário, acredito que funciona como uma nota de contraste, equilibrando a doçura e trazendo personalidade italiana à abertura. Afinal, por mais agradável que seja um bom espresso, não queremos passar o dia inteiro cheirando a café.

No coração, a fragrância ganha textura graças ao acorde de sorvete de baunilha e à nuance especiada do Speculoos, tradicional biscoito europeu conhecido pela doçura e pelo uso de especiarias, especialmente a canela. E aqui existe um detalhe interessante: não percebo uma canela seca, muito polvorosa ou agressiva. É quente, macia e bem incorporada à cremosidade da composição, como na experiência de saborear o próprio biscoito.

À medida que evolui, a baunilha assume maior protagonismo, enquanto o açúcar mascavo reforça a sensação caramelizada e prolonga a impressão licorosa, mesmo quando o café já perdeu intensidade. O resultado é uma base cremosa, adocicada e bem caramelizada, que preserva a identidade gourmand de Amore Caffè.

Gosto particularmente dessa evolução, que parte de uma abertura marcada pelo café e pelo amaretto até alcançar uma base quente e abaunilhada. Embora bastante doce, considero que os contrastes foram bem trabalhados, especialmente pelo café inicial e pelo caráter especiado que acompanha o desenvolvimento. E acredito que justamente por isso seja tão apreciada pelos homens.

Em termos de performance, Amore Caffè é excelente. Apresenta grande projeção, rastro intenso e ótima fixação na pele. É uma fragrância que se faz notar, mas também transmite conforto. Considero plenamente compartilhável, mas pouco adequada aos climas quentes. Sua doçura, densidade e projeção encontram um cenário mais favorável em temperaturas amenas ou frias, especialmente durante a noite.

No final das contas, Amore Caffè transforma a inspiração de uma sobremesa italiana em uma experiência olfativa convincente. Não é simplesmente um perfume de café, mas uma composição que utiliza essa nota como ponto de partida para explorar diferentes camadas de cremosidade, doçura e calor, de forma gourmand, envolvente e volumosa.

*imagem: reprodução / manceraparfums.com


 

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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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