Perfumart - resenha do perfume Mancera - Black Intensitive AoudLançado em 2008, Black Intensitive Aoud foi uma das primeiras criações da Mancera e integra a coleção Voyage en Arabie (Viagem à Arábia), da qual também faz parte Gold Intensitive Aoud. Curiosamente, enquanto a versão Gold ainda permanece no catálogo online da marca, a Black já não aparece em sua seleção principal, embora continue disponível em determinados mercados. E é uma pena, porque estamos falando de uma fragrância que, mesmo depois de quase duas décadas, continua extremamente atual e relevante.

Embora a Mancera a classifique como especiada-oriental (ou especiada-ambarada, utilizando uma nomenclatura mais contemporânea), considero que Black Intensitive Aoud se encaixa muito melhor na família dos florais-amadeirados-ambarados. É um árabe raiz, trazendo aquele combo tradicional de rosas metálicas, açafrão e oud que eu adoro. Aqui, realmente, a gente percebe o parentesco entre Mancera e Montale, tanto pela construção olfativa quanto pela intensidade e pela maneira como os ingredientes se sobrepõem sem perder suas identidades.

A saída é quente, picante e muito sexy, com uma presença marcante do cravo-da-índia e, logo em seguida, do jasmim, aliados a uma rosa açucarada, mas que não chega a ser enjoativa. Segundo a pirâmide oficial da Mancera, as notas de saída incluem pêssego, cravo-da-índia e pimenta ardida (chilly), enquanto o coração reúne manjar turco (Turkish Delight), jasmim, violeta e açafrão. O pêssego não se destaca como uma nota frutada evidente na minha pele, mas pode contribuir para essa sensação mais macia e adocicada que envolve as flores, especialmente a rosa.

O açafrão, por sua vez, revela aqui algumas de suas melhores facetas: coriáceas, esfumaçadas, levemente ardidas e muito sofisticadas. É intenso, mas não se torna agressivo, criando uma espécie de ponte entre o caráter floral da composição e a densidade das madeiras. A rosa mantém sua assinatura metálica, quase fria, contrastando com o calor das especiarias e com o aspecto mais sombrio e resinoso que começa a ganhar espaço.

A evolução na pele é lenta e a fragrância se mantém bastante linear, sem grandes buracos. No fundo, a Mancera declara oud intenso, notas amadeiradas e bálsamo de gurjum. É justamente nessa etapa que o calor balsâmico do gurjum se funde à cremosidade do sândalo, enquanto o oud revela um caráter mais áspero, persistente e viciante. Não há uma tentativa de suavizar demais a composição ou torná-la mais palatável. Pelo contrário, Black Intensitive Aoud parece fazer questão de preservar suas arestas.

Em termos de performance, Black Intensitive Aoud também não decepciona. A fixação é excelente, com uma presença que se prolonga por muitas horas na pele, enquanto a projeção acompanha a intensidade da composição, deixando um rastro marcante e persistente. Há quem diga que Black Intensitive Aoud passou por reformulações ao longo dos anos e que perdeu parte de sua potência original. Não sei até que ponto isso é verdade, mas, considerando a excelente performance que apresenta hoje, fico imaginando como seria aquela primeira versão. Gostaria muito de tê-la conhecido!

Quando penso em fragrâncias árabes, ainda é esse tipo de composição que me vem à mente. É o cheiro dos incensos, das notas florais adocicadas, das madeiras densas e das especiarias que parecem impregnar o ambiente. É opulência sem complicação. Não é uma fragrância excessivamente doce, tampouco enjoativa ou comercial. É insistente, incansável, cheia de personalidade, mistério e intensidade.

Para quem gosta de explorar combinações, a própria Mancera sugere o layering com Royal Vanilla, que acrescenta nuances abaunilhadas, e com Intense French Riviera, criando um contraste mais fresco, cítrico e salgado.

Black Intensitive Aoud tem quase 20 anos e continua sendo um belo exemplo de uma perfumaria que não precisava seguir tendências para conquistar seu espaço. É uma fragrância que não tenta agradar a todos, não esconde sua intensidade e não abre mão da personalidade. Quando penso no que me fez gostar tanto desse universo raiz das fragrâncias árabes, é exatamente esse tipo de perfume que me vem à memória. Também faz o seu tipo?


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BORRIFANDO CONHECIMENTO HÁ ANOS. Crítico de fragrâncias, avaliador olfativo, jurado de premiações nacionais nas categorias de perfumaria fina e cosméticos masculinos, além de consultor particular de estilo em fragrâncias e criador do Perfumart, maior blog especializado no assunto.

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